domingo, 3 de agosto de 2014

luzes

Presa na minha própria solidão, sequestrada pelos meus próprios fantasmas, assombrada por desilusões de coisas que fiz, e de arrependimentos por coisas que poderia ter feito, e hoje ? Hoje vivo com medo da sombra, da sombra que caminha comigo cada vez que saio à rua, da sombra que por vezes nem nas noites mais escuras e amargas me deixa, a sombra daquilo que poderia ser e não sou. 
Poderemos chamar de viver, a alguém que vive sempre com a luz apagada ? Eu chamaria, pois tenho preferências pela escuridão, aquela que me esconde, que me acolhe, e que me faz sentir viva, ou pelo menos mantém viva a parte mais obscura de mim, aquela que outrora temi, e que agora se está a tornar inseparável. Uma vez perguntei-lhe o que aconteceria se eu acendesse a luz, e sorri-se e a noite respondeu que a luz tem diferentes densidades, é como ir tirar uma fotografia com flash, se não estivermos prontos, o flash incomoda-nos e deixa-nos tontos de certa forma, enjoados. 
" Não podes sorrir eternamente à espera que alguém se lembre de captar o momento, sorri apenas quando tiver de ser, quando a disposição para tal estiver ali mesmo ao teu lado, e quando isso acontecer ela avisar-te-à para aquilo que necessitas de fazer " - não confiei, porém testei, testei de várias maneira, maneiras essas diferentes de sorrir, de esperar pelo momento em que alguém viesse captar o meu sorriso. Esperei. Talvez ainda esteja à espera, mas na escuridão da noite eu posso ser quem realmente sou. Posso ser a rapariga que não tem de acender a luz, a rapariga que não precisa de esconder o seu lado mais obscuro, posso ser eu na minha mais variada zona de conforto. 
Não o queria, mas a noite, de certa forma, acabou por me acolher como uma filha. Ela envolve-me na sua escuridão, abraça-me com o seu sofrimento, e desperta-me relembrando-me que não necessito de acender a luz para encarar as desilusões, porque essas são como lapas, essas nem a noite consegue expulsar. E os arrependimentos ? Esses continuam sempre presentes, esses são o castigo que a noite me dá, esses são as lágrimas, porém derramadas em vão, porque a noite não volta atrás, a noite continua, e de alguma maneira vou ter de enfrentar o dia, as luzes acesas e os flahes.